A cada dois biênios, em toda eleição, ouço a mesma assertiva: “não me sinto representando por nenhum candidato, então anularei o meu voto”; ou pior: “se a maioria da população anular o seu voto, serão convocadas novas eleições E os atuais candidatos estarão impedidos de concorrer, pelo que se erigirá uma nova classe política, limpa”.

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O que sempre me pergunto é: de onde é que essas pessoas que isso asseveram obtiveram tal informação??? Na verdade, a questão é retórica e eu o sei muito bem. Tratam-se de opiniões espalhadas por correntes de internet e manufaturadas por pessoas quase tão ignorantes quanto as que as propagam.

Mas vamos lá! Qual a verdade??

Quem tiver um pouco de curiosidade sobre como funciona o nosso processo político, pode tranquilamente buscar no Google pelo Código Eleitoral (Lei 4.737 de 1965) e pela Constituição Federal de 1988 (postarei os links abaixo, para facilitar). Esses são os diplomas que reúnem as regras do nosso jogo político. Sobre o Código Eleitoral, na seção V, a partir do artigo 188, são dispostas as regras sobre contagem dos votos. Ali notamos que o tratamento dado ao voto nulo é o mesmo do voto branco, ou seja, são considerados apenas os votos válidos para a determinação do candidato vencedor.

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Trocando em miúdos, em uma situação limite em que 99% da população anulasse seu voto, seriam considerados os votos do 1% restante e, por meio deles, determinar-se-ia o candidato vencedor.

Entendeu agora o porquê de ser necessário, por vezes, “escolher o menos ruim”? Explicarei melhor.

Quando votamos em branco, anulamos o voto ou simplesmente deixamos de votar, estamos pela via oblíqua favorecendo o candidato que está melhor colocado. Quase sempre, infelizmente, o candidato com maiores intenções de voto não constitui a melhor opção. ISTO É UM FATO! De modo contrário – acaso os vencedores fossem bons – nossa política não estaria esse posso de excretos.

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Voltando um pouquinho no tempo, à Grécia arcaica, berço de nossa democracia, Aristóteles dividia as ciências em teoréticas (por meio das quais se busca a verdade em si mesma), produtivas (que visam à produção de um bem material) e práticas (no sentido de ações humanas – não algo contemplativo, como nas ciências teoréticas – e que não produzem um bem, objeto – como nas ciências produtivas –). Dentre as ciências práticas, Aristóteles aponta a Política como a que trata de um BEM SUPREMO e que, assim, subordina as demais ciências práticas. Aristóteles assim o declara porquanto enxerga o ser humano enquanto ζῷον πoλιτικόν (animal político) que tem na πόλις (pólis, cidade) o seu habitat natural. Deste modo, mais do que cuidar da sua casa e da sua família, o homem deveria cuidar do seu meio ambiente, preocupando-se em não deixa-lo entregue a qualquer um (cuidar da cidade em que vive). O homem que não se preocupava com a política também não zelava por seu habitat natural e era visto pelos gregos como um IDIOTA (ἴδιος, próprio, pessoal), na medida em que só cuidava de seus próprios interesses, danando-se para o resto. Havia um ideal de boa sociedade e os homens gregos, no geral, eram educados para participar dela.

O tempo passou, as relações humanas se dinamizaram, melhoraram ou pioraram (deixarei para você mesmo julgar) e num tempo posterior, de ditaduras, poder pela força e muitas guerras, um florentino fantástico chamado Nicolau Maquiavel decidiu colocar de lado o idealismo e estudar a sua realidade como ela de fato se mostrava: dura, muitas vezes ingrata, ditada pela sorte e controlada por uns poucos que, lidando astutamente com as adversidade, tomavam e mantinham o poder pela esperteza e pela força.

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E aí? Alguma semelhança com os dias atuais?

Analisando o presente quadro, eu polarizaria os hodiernos cidadãos em idiotas que não se importam com o todo, votam em branco, nulo ou não votam, e são dominados por aqueles astutos que sabem dirigir as massas e trabalhar a máquina estatal, mas estão mais preocupados com tomar e manter o poder do que em melhorar as condições dos demais. Estes últimos são os maquiavélicos. Entre uns – idiotas – e outros – maquiavélicos –, há alguns gatos pingados que desejam realmente a melhora do plano geral, por meio de incrementos nas áreas da saúde, educação, cultura, segurança pública etc. Contudo, estes “preocupados” estão por demais centrados em questões ideológicas, o que os impossibilita dar um passo atrás, olhar para O OUTRO e ver o quão melhor seria unir forças com os que, como eles, também se preocupam, ao invés de apenas discutir por serem de direta ou de esquerda. Aos maquiavélicos, a ideologia não importa! Eles estão sempre ao lado dos vencedores, são sempre os vencedores, aproveitando-se das paixões daqueles que por elas se matam e nelas se perdem.

Atualmente, no nosso país, o PARTIDO mais raro é o DOS HONESTOS. Pense nisso…

E você? Já escolheu de que lado ficar? Se não quer escolher o “menos ruim”, faça a diferença! Candidate-se ou apoiei alguém que o faça, mas não se omita.

 

Fontes:
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario,. História da filosofia. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2004.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Atlas, 2009.

MACHIAVELLI, Niccolo. O príncipe e escritos políticos. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2010.

SCOTT, Robert; LIDDELL, Henry George. A greek-english lexicon. Oxford: At The Clarendon, 1968.

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4737.htm